Revitalizar o Mercado Distrital de Santa Tereza

Mobilizações; Sociedade Civil | 20 de agosto de 2007 | Envie para um amigo

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O prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, botou palha no fogo das suas relações atritosas com os ambientes populares e de militância, que o acusam de autoritarismo. Concedendo lauréis muito duvidosos à sua recém-criada Guarda Municipal, enviou-a para ocupar a área do tradicional e popular Mercado Distrital de Santa Tereza, com o fito de transformá-lo no quartel da nova corporação.

Não faltou quem logo o assimilasse ao prefeito paulista Jânio Quadros que, no final dos anos oitenta, confirmando a sua aura autoritária, mandou ocupar o vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista, desalojando muitos que viviam em moradias populares. Consta que Jânio teria declarado, para obstar os descontentes, que a sua caneta era mais expedita e poderosa que o clamor do povo.Jânio pode muito bem ter se lembrado do que fez Mussolini nos anos 30 com a célebre “Via della Conciliazione”, que abre o trânsito de Roma ao Vaticano. O ditador italiano investiu com toda a fúria que lhe era costumeira contra as plurisseculares construções populares, considerando que elas “ofuscavam a magnificência celestial da sede mundial do catolicismo”! Hoje ainda, os melhores guias turísticos de Roma lamentam a “terra arrasada” de Mussolini e dizem que a destruição daqueles quarteirões tirou o encanto propiciado pela  surpresa de que o visitante era tomado ao descobrir o Vaticano  depois de percorrer o labirinto tortuoso de casas populares odiado  e destruído pelo ditador!

 O fato se apresenta em Roma como um monumento ao oportunismo histórico da Igreja Católica, que permitiu que o ditador agredisse a população pobre que morava nas suas cercanias e a transladasse para o hoje populoso bairro de Primavalle, a uns 15 quilômetros de distância. A entrada “triunfal” do Vaticano, uma vez atravessado o rio Tibre, que os populares chamam de “via del Cementerio”, foi assim batizada pelo ditador e pela Igreja para comemorar os acordos firmados por ambos em 1929, na esperança clérico-fascista de superar o “cisma da revolução francesa” de 1789, que separou a Igreja e o Estado no interesse mais amplo da cidadania. O prefeito Pimentel deveria ter pedido à sua assessoria para pesquisar essa história. Como não fez isso, a população se mobilizou e se juntou numa votação comunitária que deu 1412 votos (90,3%) contra e 145 a favor da ação da Prefeitura de BH. A grande maioria – como em Roma nos tempos de Mussolini e em São Paulo nos tempos de Jânio – quer a revitalização do Mercado Distrital de Santa Tereza e não a sua destruição.O governo mnicipal de Pimentel  não vê as coisas de maneira atualizada, em  consonância com  os tempos que vivemos que exigem o reforço da particiação  da população na organização  e governo da sua própria vida coletiva.Um dos grandes motores dos desajustes que vivemos hoje, em escala muito alargada , está na desagregação comunitária ou perda de identidade dos grupos humanos. A questão da segurança é conseqüência  ou derivada  e não autonoma. Reforçar essa identidade  ou os elementos de re-agregação é medida precípua para qualquer administração democrática. Este elemento ocupa sem dúvida o primeiro lugar entre as  medidas preventivas contra a violência urbana.  O quartel da guarda  municipal   está no sentido da ação repressiva que deve ser subordinada à ação preventiva.A falta de sintonia  de Pimentel e do  PT com as exigências mais atualizadas demonstra mais uma vez que eles não vieram para mudar  mas simplesmente para repetir com mais consenso o que sempre fizeram as elites tradicionais no país:  reprimir as maiorias  sociais  em defesa dos interesses mais retrógrados. 

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Comentários:

13 comentários sobre “Revitalizar o Mercado Distrital de Santa Tereza”

  1. Délcio Vieira Salomon em 20 de agosto de 2007 19:41

    É isso aí companheiro Massote. Apesar de jovem esclarecido, nosso prefeito Pimentel não consegue livrar-se das peias autoritárias de que se revestiu o PT.

  2. Margo Massote Alvarenga em 21 de agosto de 2007 11:28

    A “terra arrasada” de Mussolini, boa comparação! Só que o acordo aqui em BH foi feito em pleno 2007, num período pós ditadura militar, no qual Prefeito ” PT” e Governador “PSDB”, ambos sem ideologia alguma, mas com descendência e ascendência mesmo é de jagunços(velhos capitães das arbitrariedades)da volumosa “terra das gerais”,e que no auge da competição, a prefeitura resolve se instalar num reduto já superocupado pela PM mineira.É evidente que se o povo na sua maioria não quer que a guarda municipal se instale no tradicional e antigo mercado de Santa Tereza, ponto final. Aliás esse bairro de BH há muito já centraliza as dependências da PM de MG e não quer a ocupação de seu Mercado por Tropas Municipais. Se querem competir com a PM que procurem se instalar noutro canto: os dois, Aécio e Pimentel, ambos afilhados do presidente Lula, podem entrar num acordo e pegar um pedaço do território da PM a ser cedido para a Guarda Municipal.
    Aliás, a periferia da cidade está necessitando muito mais de policiamento,e a guarda municipal poderia se instalar em áreas “não ocupadas pelo povo” e desenvolver um trabalho de fiscalização aos Direitos Humanos, pois são nesses bairros que vemos as maiores humilhações e desacatos
    aos seus habitantes, tanto pelos criminosos oriundos de uma sociedade injusta como de verdadeiros capatazes e brutais da Polícia Militar. Essa população só conhece o medo e o desrespeito. Ocupar e treinar a Guarda Municipal para vigiar e atender essa população, isso sim seria um ato de democracia e não ficar mexendo naquilo em que as coisas vão bem e são de preferência da população local.
    Acho que o povo de Santa Tereza deve procurar agora outros meios para reocupar o espaço perdido: poderão estar do seu lado camadas mais evoluídas da sociedade civil e que não acreditavam nesse trágico desfecho. Outra vez, diremos: Prefeito Pimentel, quem te viu e que te vê, em?

  3. alexandre vivacqua em 21 de agosto de 2007 18:07

    Fernando Massote, como de hábito, sabe
    localizar fatos do cotidiano que mostram a nossa atual política, longe… bem longe da democracia!

    Alexandre Vivacqua

  4. Gudesteu Hostalácio em 23 de agosto de 2007 01:52

    Ho capito. Então, o ilustre professor está comparando o Pimentel a um neo-nazi-facista. A dopo.

  5. Orestes Teixeira em 23 de agosto de 2007 16:41

    Não, caro Gudesteu. Entre a semente (a inclinação autoritária) e o fruto maduro (o nazi-fascismo) há um tempo a ser vivido e um caminho a ser percorrido: a história e a política. Ao denunciar o gesto autoritário, o prof. Massote apenas identifica a natureza da semente que cabe aos verdadeiros democratas impedir que dê frutos.

  6. Junia Pereira em 23 de agosto de 2007 20:21

    É pessoal…Sou um dos 1.412 votos aí de cima. Dá uma canseira danada falar da coerências das atitudes de pessoas ‘políticas’. Nunca vai mudar. Ainda bato palmas pro Delfim, qdo ‘louca e celebremente’ soltou a pérola que a melhor saída para o nosso Brasil é…bem; vcs já sabem!

  7. Raquel Romano em 24 de agosto de 2007 23:23

    Amigo Fernando,
    Sua indignação expressa em análise inteligente e comprometida com um legítimo processo democrático não deixa negar quem você é, sempre categórico!
    Apesar de estar do outro lado da cidade, tenho acompanhado a luta do Yé e da população de Santa Tereza pela melhor ocupação daquele espaço.

  8. Luis Góes em 29 de dezembro de 2007 23:19

    Caro professor Massote,
    concordo em parte sobre o seu comentário do nosso falido Mercado Distrital de Santa Tereza.
    Como era sabido, estavam atuando no Mercado Distrital apenas 12 barracas ou feirantes. O espaço é muito nobre para tão pouco uso.
    O Mercado foi criado em 1974 para tirar as “Feiras Livres” das ruas, no caso a nossa Praça de Santa Tereza. Ali, os consumidores teriam banheiros, bares, cobertura e estacionamento.
    Acontece que, com a criação de sacolões no bairro e imediações, além dos super e hipermercados, acabaram desviando o público que iam comprar legumes, ovos e frutas naquele local. Atualmente, para abastecer com todos os ítens as casas vamos, numa única viagem de carro, ao Extra, Jumbo, BH Shopping e outros.
    Os tempos são outros e os poucos clientes do Mercado eram nós mesmos, saudosistas e com oportunidade de rever algum amigo para bate-papo.
    Entretanto, caro professor, nosso bairro não é passagem para outros bairros e temos apenas duas linhas de ônibus. Veja o Sacolão ABC, do Horto, onde passam dezenas de linhas de ônibus. O movimento é intenso de pessoas. Os feirantes do nosso Distrital estavam pagando para permanecer naquele local.
    Com relação à Guarda Municipal, sabemos que seus membros não prendem pessoas mas apenas vigiam o patrimônio municipal.
    A Guarda faria do Mercado um Centro Administrativo com a presença de algumas dezenas de seus membros na região, o que inibiria atitudes de marginais, em benefício dos moradores do bairro e das ruas que o cercam. Professor, ande pelas ruas Bom Despacho, São Gotardo, Silvianópolis, Perite, Oligisto e outras depois das 19 horas. Ai verá como seria bom a instalação da Guarda.
    Finalizando, a posição contrária foi muito taxativa, não deixando a possibilidade de um acordo com a Prefeitura, que poderia fazer um galpão para os feirantes e a Guarda ministrar cursos para os meninos de nossas favelas, manter policiamento nas nossas praças e outros benefícios em contra partida.
    Por último, sugeri a Prefeitura que ali instalasse a Diretoria da Regional Leste, com agência bancária, telefones públicos, um posto da Guarda Municipal, melhor iluminação do local e outros benefícios, mas que não faça mais um lugar para trazer baderneiros e bêbados para Santa Tereza.
    Com relação a centro de cultura, nós o teremos em 2008, no antigo Cine Santa Tereza.

    Luis Góes (9647-9355)

  9. Yé Borges em 14 de abril de 2008 18:22

    Caro professor Massote,
    a mobilização da comunidade de Santa Tereza
    mostra que não há jogo perdido.
    Ninguém acreditava que poderiamos
    reverter uma decisão equivocada,
    tomada sem consulta á comunidade.
    Nossa vitória vem mostrar a necessidade
    de se fortalecer e organizar
    as associações comunitarias
    como fórum primário
    dos debates democráticos.
    Saudações fraternas
    Yé Borges

  10. Laura Gomes em 14 de abril de 2008 18:32

    De fato, o mercado distrital
    é um importante fomentador
    da identidade cultural do bairro de
    Santa Tereza.
    A sua transformação em
    guarda municipal
    traria uma perda material e simbólica
    irreparável.
    Laura

  11. Paulo Ludgero Cintra Ramos em 14 de abril de 2008 18:50

    Prezados Professor e visitantes,

    Os debates acerca do artigo sobre a revitalização do Mercado Distrital de Santa Tereza gravitam entre a utilidade da democracia como caminho para a construção de uma sociedade justa e a função da maquiagem mais pesada nos dramas que nas comédias:
    E prefiro me ater à utilidade de nossos atos, pensamentos e intenções quando falamos em construir uma sociedade justa, porquê não dá pra conceber que alguém eleito por um partido, comprometido historicamente com tal construção, adote uma postura cega em relação ao povo que o elegeu.
    O debate principal não é o da utilidade material do mercado em sí; mas o da oportunidade de transformar uma realidade (o abandono) em um conjunto de oportunidades para as pessoas todas deste bairro-ilha que é Santa Tereza, composto em sua maioria por pessoas adultas e/ou idosas.
    Quando das primeiras reuniões que ocorreram para debater perspectivas de revitalização do Mercado Distrital, apontei a caducidade do sistema de abastecimento a que pertenceu nos anos 70. Aquelas metodologias industriais e mercadológicas foram suplantadas pela economia globalizada das fusões de capitais e de interesses; a logística surge como Imperatriz-mãe do novo capitalismo transnacional e essa nova realidade chegou à nossa porta, sim.
    Mas como um bairro-ilha, Santa Tereza repousa seus extremos em pracinhas ínfimas que carecem de maiores cuidados; mas isso é a cultura da gente daqui, que não interage em cuidar de suas praças. Aquele espaço físico nem precisa mesmo de ser um mercado. Mas pode ser também!
    No mundo inteiro ocorreu esse fenômeno do fechamento ou falência do modelo dos mercados tradicionais. E os únicos projetos de revitalização que lograram êxito aliaram à revitalização do antigo modelo, a moderna indústria do turismo local.
    E o que tem Santa Tereza de atrativos turísticos? Como de resto, é mais um bairro duma cidade que não tem mar; tem bar! Mas é um bairro que, saudosismo à parte, construiu uma tradição de boemia, de musicalidade, de footing (desde as primeiras horas de seu surgimento), de vida tranqüila, de contemplação das belezas de todas as épocas de nossa cidade, que aqui estão bem representadas nas construções. Teve até um movimento musical nos anos 70 que ficou mundialmente famoso e projetou o bairro para o mundo (mas aí tem gente que acha que isso não cabe no debate, então tiramos isso do debate). O belorizontino tem uma cidade inteira pra passear. E todas as manifestações culturais, artísticas, gastronômicas, arquitetônicas e o quê mais quiserem pensar, refluem para Santa Tereza. O projeto de revitalização que surge de uma construção coletiva da comunidade, contempla estes aspectos e propõe que o Mercado seja um ponto de apoio ao turismo receptivo, gastronômico e cultural, como os projetos de revitalização que deram certo em Madri, Milão e Istambul (os únicos que lograram êxito).
    Democracia seja plena,o resultado do plebiscito foi quase unânime em afirmar que nossa comunidade quer sim decidir sobre seu futuro. O espaço físico é patrimônio público, e o Sr. Prefeito ao querer empreender ali qualquer atividade, deveria antes de mais nada se ater à Lei. Mas ele achava que não precisava; que Lei é só para o povo; Pois é! E o povo a fez cumprir. Primeiro a Lei de Uso, Parcelamento e Ocupação do Solo, na qual nosso bairro é definido como uma Área de Diretrizes Especiais, onde, para cada empreendimento deve ser apresentado um Estudo de Impacto Ambiental (EIA). E depois, num segundo momento, que trata da preservação do patrimônio imaterial, a Lei Orgânica do nosso município é clara quanto aos impasses que deverão ser resolvidos ou por arbitragem judicial ou por plebiscito.
    Parabens à jovem democracia brasileira, que vai dando seus primeiros passinhos rumo a uma maturidade, que espero, acompanhe a minha.
    O projeto de revitalização do mercado, mais que uma reforma física de um espaço físico é uma oportunidade de um povo construir sua identidade e dizer o que quer ser no futuro, que começa hoje.
    E mais gostoso ainda é saber que não foi unanimidade; que teve gente que achava que o povo não pensa e não precisa ser consultado; gente que se põe acima dos seus iguais simplesmente porque acredita que tem uma mente brilhante e privilegiada… Obrigado, Nelson Rodrigues pela lição.

  12. Marcelo Góes em 11 de janeiro de 2013 07:58

    Ressuscitando este tópico de 2007, eu acho que o tempo se encarregou de fazer algo correto com o mercado.

    É ilusão e ingenuidade acreditar que polícia traz segurança para a sociedade. A polícia não é amiga e não protege o povo. Ela protege a elite do povo.

    O que traz segurança para a sociedade é a boa formação de seus indivíduos e esta escola técnica do SENAI vai ajudar a cumprir este papel social preenchendo o tempo de vários jovens com educação e os qualificando para terem oportunidades de encarar o mercado de trabalho.

    Somente a educação pode transformar nossa sociedade.

    Marcelo Góes.

  13. Fernando Massote em 11 de janeiro de 2013 11:37

    Marcelo,
    Uma pitadinha em nome da equipe do nosso blog: educação sem participação e/ou posicionamento critico-politico gera a elite que está aí descolada e contrária ao povo. Abraços,

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