COM O BIGODE DE MOLHO, Manoel Pereira (*)

Censura à Imprensa Mineira, Crônicas | 10 de julho de 2009 | Envie para um amigo

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Eu devia ter continuado na padaria…

É mais fácil amassar pão do que palavras, ora pois!

Eu não sabia que esse blog era tão lido. Se soubesse, não teria me aventurado num ofício que desconheço. Quando meu artigo foi publicado, até gostei de ver impresso, vamos dizer assim, o que eu havia escrito.

Foi com esse estado de espírito que tomei banho, coisa que não tenho feito com freqüência desde que deixei a padaria e que retomei alguns hábitos europeus (até deixei crescer uns bigodões que eu, quando padeiro, não me permitia para não dar mau exemplo aos empregados), enfim, arrumei-me com aprumo antes de dirigir-me ao bar do João Piolho. Vamos dizer assim, uma espécie de clube noturno, meu e de outros desocupados do Santo Antônio.

Alguns cá podem não conhecer o João Piolho, mas quem leu o “Encontro Marcado” do Fernando Sabino – eu não li, mas muitos fregueses, como o Vianinha, leram e fazem questão de o propagar – deve se recordar do bar que ficava aberto dia e noite e tinha um apelido que não vou dizer aqui, num blog freqüentado por gente ilustre como o ex-reitor da UFMG Cid Velloso. É só para dizer que o João Piolho é filho do dono daquele bar freqüentado pelos amigos do Sabino lá pelos anos 40.

O João puxou ao pai. É tão zeloso, mas tão zeloso mesmo com a limpeza, que um freguês, o Zé Metralha, delegado de polícia aposentado, nem se preocupa quando algum velho companheiro de mesa desaparece para sempre. Ele diz que nem precisa de exame do médico legista para saber a causa mortis. “Velho morre de três k”, resmunga ele toda vez que isso acontece. Um desses k, para quem não sabe, é caganeira.

Pois então! Quando adentrei o bar naquele começo de noite, fui recebido por sonora gargalha! Alguém copiara da Internet o meu artigo e os safados tinham acabado de ler e só estavam me esperando…

– Não sou burro! – gritou o Silveirinha, um advogado de porta de cadeia muito do sem-freguês. – Não, Mané! Você não é um burro, você é uma besta! Isso é óbvio!

– Escrevo bem! – imitou-me o beócio do Mourão.

Ele se considera um crítico literário. Não sei, nunca li nada do Mourão. Mas tive que ouvir:

– Eu contei oito pontos de exclamação e sete reticências num textículo daquele tamanho! Ô Manoel, você devia ler um seu patrício, o José Saramago. É prêmio Nobel, sabe o que é isso? O único escritor de língua portuguesa reconhecido mundialmente. Pois o Saramago escreveu o livro “As intermitências da morte” usando apenas vírgula e ponto final. Economizou até nas maiúsculas dos nomes próprios e nos parágrafos… Vá se coçar com aquela sua lista de clássicos, ô Mané!

Acho que crítico literário devia ter mais respeito a escritores iniciantes, mas fiquei tão furioso que não me dei ao trabalho de responder ao Mourão. Saí do bar pisando duro e pensando que nunca mais voltaria. Mas sei que logo estarei de volta, pois sou pronto pra esquecer as ofensas. O tal crítico, porém, devia reparar que eu nunca disse que sou escritor, apenas que escrevo bem para um ex-padeiro…

De qualquer forma, ontem não voltei lá no bar. Pensava também que não voltaria aqui tão cedo, mas cá estou de volta porque não podia deixar de esclarecer uma coisa. Não sou e nem pretendo ser agente provocador a serviço do Aécio Neves aqui e em lugar algum.

E só agora alguém veio me dizer que, em Minas, quando se escreve uma ironia é preciso avisar que você está sendo irônico. Pois então: eu estava sendo irônico quando disse que ia me instruir ouvindo os discursos do Aécio Neves! Achei que era óbvio, ninguém pode se instruir com uma coisa dessas.

Outra coisa que é preciso ficar claro, não estou aqui para substituir aquele jornalista que se mandou. Não tenho competência para isso, nunca li aqueles livros todos que vi lá na estante da casa dele. Pois fui lá, depois de ter conversado por telefone, para mostrar a ele o artigo e pedir que o enviasse ao professor Massote, pois não uso essa coisa de Internet. Ele se prontificou e até digitou o artigo manuscrito. Vou pedir que ele faça de novo com este aqui. Ele é mais rápido nisso do que eu para esvaziar um saco de trigo…

Por falar nisso, se ainda pudesse, voltaria para a padaria em vez de ficar aqui escrevendo essas besteiras. E o Castro ainda me fez o favor de botar minhocas na minha cachola. Ele imprimiu para mim um artigo que acabara de ler no Observatório da Imprensa. Não sou bom pra resumir, mas o caso é o seguinte:

O repórter e editor do “Jornal Pessoal”, Lúcio Flávio Pinto, de 59 anos, foi condenado por um juiz de Belém do Pará a pagar indenização de 30 mil reais a dois irmãos donos da TV que é afiliada da Rede Globo no estado, porque escreveu que os pais deles, já falecido, era contrabandista até 1964.

Se fosse comigo, eu estaria n’água! Trinta mil reais! Como não tenho dinheiro, sei lá se um juiz me manda para a prisão como pena alternativa? O Aécio Neves escreveu recentemente na Folha de S. Paulo – o Mourão teve a bondade de me enviar recorte do artigo, ele além de tudo é um tucano emplumado! – que a criminalidade em Minas caiu não sei quantos por cento e que vai privatizar as prisões.

Ora, fiquei cá matutando com meus botões: se a criminalidade está caindo tanto como diz o governador, vamos que algum juiz que gosta de prestar serviço não dará um jeito de mandar um gajo para a penitenciária por dá cá aquela palha? Pois empresa privada não sobrevive sem lucro e quanto mais gente presa, melhor!

Pensei e fui logo botando minha barba, digo, meu bigode, de molho.

 

(*) Ex-padeiro

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Comentários:

1 comentário sobre “COM O BIGODE DE MOLHO, Manoel Pereira (*)”

  1. Harley em 12 de outubro de 2009 11:23

    Acredito quem esta falando mal do GRANDE AECIO e apoiador de outro partido, ou pessoa.
    Independente de partido ou pessoas, eu moro e em MG, sei que este governador e um dos melhores da historia de minas gerais.

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