HONDURAS: A ÁRVORE E A FLORESTA DA CRISE, Fernando Massote

Política Nacional | 26 de julho de 2009 | Envie para um amigo

Envie para um amigo





Um jornal mineiro, o mais tradicional da espécie, joga hoje como bola da vez da sua pauta sempre enfadonhamente conservadora, uma campanha a favor dos golpistas de Honduras. Ele publica dois textos nesse sentido. Um na página de Opinião e outro na de assuntos internacionais. O primeiro é de autoria de um de seus articulistas mais antigos, advogado afeito às nomenclaturas, exibindo, com destaque, como qualificação de seu nome, uma lista de títulos profissionais e de representação classista. O parafraseado, afetadamente autoconfiante, enfatiza o tom de quem quer desencorajar e intimidar, desde logo, qualquer atitude crítica a seu respeito ou de suas posições, considerando-as irrazoáveis. O estilo é, assim, psicologicamente, o do enfant terrible que cresceu habituado às loas de rebento prodígio da classe média. O taticismo verbal ou literário que imprime ao texto indica que qualquer discordância das suas posições é coisa considerada antecipadamente ridícula.

Quem lê com serenidade crítica o insigne articulista se dá conta, facilmente, que o que mais falta ali é objetividade e o que mais abunda é a raiva afetada dos críticos do “status quo” e a incapacidade de se distanciar cientificamente dele.

Não conheço a história de Honduras o suficiente para explicar pontualmente a reviravolta que está se dando naquele país. Mas que reviravolta hay, la hay! Um presidente saído das coortes dominantes, eleito com apoio delas, se rebelou da maneira mais ardita, consciente, ao mesmo tempo que explosiva, mas irrepreensivelmente “inocente” do ponto de vista legal, propondo um referendo para convocar uma Assembléia Nacional Constituinte para mudar a Constituição do país no sentido de permitir a reeleição do primeiro mandatário. Há algum mal nisto, ou seja, em perguntar ao povo o que pensa de um assunto, mesmo que ele esteja protegido por uma “cláusula pétrea” constitucional no interesse das mais petrificadas oligarquias dominantes?

Propor um referendo que autorize a instalação de uma Assembléia Nacional Constituinte é uma ofensa à legalidade, permitindo a prisão do presidente da “república”, o seu seqüestro no Palácio do Governo e sua expulsão do país? Estes fatos não bastam para confirmar que o país onde eles se deram é, com efeito, uma republiqueta de banana?

Malha de interesses

A questão colocada pela crise hondurenha é muito maior do que a de saber se o presidente errou ou não, foi legal ou ilegal, merecia ser preso e expulso do país. A questão é saber, primeiro, porque um presidente saído das oligarquias propôs uma reviravolta constitucional e depois porque, diante disto, as hostes civis e militares da elite bananeira de Honduras, decidiu prendê-lo e expulsá-lo do país! E ainda, decidir se é ou não sintomático que o governo de Barack Obama, assentado sobre tantas promessas de abertura ou de flexibilização da dureza imperialista de Bush e seus antecessores, se conduz de forma tão fraca no episódio envolvendo atitudes tão consensualmente golpistas? Há uma contradição entre o presidente norte-americano e sua secretária para assuntos de política externa, Hillary Clinton, que está repreendendo Zelaya porque, com o apoio de meio mundo, está tentando voltar para casa ou não há contradição alguma mas uma parceria para ela falar em nome dele traindo as suas promessas? Toda esta fraqueza, ambiguidade e contradições com as promessas de respeito pela democracia não será porque o presidente dos EUA está preso na malha dos interesses dos seus aliados tradicionais em Honduras, em outros países da América Central e dos clientes norte-americanos daquelas mesmas elites bananeiras? Esta mesma trama não o envolve ou o envolverá também em outras situações do tabuleiro internacional?

Ímpetos bacharelescos

O que está acontecendo na América Central é, generalizadamente, enfim, uma crise que serpenteia no mundo inteiro, envolvendo os países mais “coloniais-colonizados”, configurados num planetário “elo mais fraco” da cadeia de controle exercido pelo imperialismo, em busca de um stablishment social e político mais adequado para gerir a realidade ou equilíbrio sócio-político interno e regional.

Esta crise, mudando as relações de poder, mexe naturalmente com as hegemonias locais e internacionais. Há, nesse sentido, uma indefectível relação entre os fatos que se dão no Oriente Médio envolvendo Irã, Iraque, Afeganistão, Palestina e Israel, Paquistão e Índia; na Ásia envolvendo também a Coréia do Norte e do Sul; na América Latina, os países social e politicamente mais fracos, como Paraguai, Bolívia, Equador e agora os da América Central, Nicarágua e Honduras que se reorganizam com o apoio da Venezuela, escudada na fartura petrolífera e no protagonismo de Chávez.

Os arautos golpistas do jornal mineiro só enxergam a árvore e não veem, por incapacidade política e mesmo intelectual, a floresta. A crise hondurenha e o caso Zelaya são apenas um grão de areia neste vasto panorama mundial da crise atual. E que não se venha tentar desmerecer, com ímpetos bachalerescos e no interesse, conscientemente ou não, do golpismo, esta visão mais ampla. Só ela permite uma abordagem não só mais crítica, mas também mais responsável ou se quisermos, isenta, ou melhor, objetiva, para tratar toda a crise planetária e/ou qualquer um dos seus capítulos.

594 visitas

Comentários:

6 comentários sobre “HONDURAS: A ÁRVORE E A FLORESTA DA CRISE, Fernando Massote”

  1. Fernando Massote em 26 de julho de 2009 13:19

    Massote,
    acabo de ler o artigo. achei o conteúdo excelente, sobretudo por alguns aspectos que pontuo:
    1- Sua visão dos problemas é sempre dialética e por isso sabe ver o todo antes da partes e encontrar onde os fatos se relacionam. Para o pensador dialético, não só tudo se relaciona, como o todo precede às partes, e o fato político é ao mesmo tempo econômico, histórico, social …enfim global. Em contraposição a visão do professor Sacha Calmon é, além de estreita, por se prender apenas ao formalismo jurídico, positivista e lógico formal.
    2 - Você , dentro de sua análise global, nos alerta para o que está ocorrendo no mundo como um todo e na América Latina em particular. Pena que articulistas como meu amigo Sacha Calmon tem espaço na “grande mídia” e gente como vc. não. E sabemos o motivo.
    3 - Curiosamente, antes de vc. telefonar, estava pensando em mandar carta de leitor para o Estado de Minas, criticando o posicionamento do Sacha. En passant, ontem mandei artigo sobre a pandemia suina. Será que publicarão? Em anexo estou lhe enviando o texto.

    Sem mais,
    forte abraço
    Délcio

  2. Marco Túlio de Carvalho Rocha em 29 de julho de 2009 12:16

    Peraí!
    Então, a norma da Constituição hondurenha que proíbe discutir a reeleição é autoritária?
    A referida regra é desfavorável aos “anseios populares”?
    Defender a aplicação da Constituição é, no caso, mero formalismo, positivismo?
    Defensor do status quo? Então o Prof. Sacha deixou de ser o apoiador do ideário e de políticos de esquerda que sempre foi?

  3. octacilio de Paula Silva (prof. da Fac. de Direito da UFMG) em 31 de julho de 2009 04:35

    Os comentários acima estão estabelecendo confronto entre os dois artigos sobre a crise política em Honduras. Mas são duas diretrizes diversas: o Prof. Sacha, sendo tributarista, produz artigos de natureza jurídica, às vezes com incursões em outras áreas do conhecimento, ao passo que o Prof. Massote é cientista político (denominação moderna) escrevendo sobre assuntos variados, mas com fixação de maior profundidade na área sócio-político-filosófica em que é mestre. Torna-se difícil comparar objetos ou matérias de naturezas diferentes, e muito menos autores de formação diversa, máxime se formos tratar de solução democrática para a crise em foco. Mas há o direito abatrato de revolução, que mudaria a ordem jurídica, criando, após, outra, ou simplesmente uma ordem político-administrativa. Isso, todavia, dependeria de forte liderança, não sendo desprezado apoio popular. A coisa vai-se complicando para uma realidade e uma solução distantes.

  4. josé de souza castro (jornalista) em 31 de julho de 2009 19:06

    “Mas que reviravolta hay, la hay”. Sem dúvida, o professor Massote vê o que se passa na floresta. E parece que até mesmo a estúpida e gananciosa elite econômica e política de Honduras está sendo obrigada a ver que a coisa mudou no mundo e na América Latina. O presidente interino Roberto Micheletti certamente já se convenceu disso e está tratando agora de convencer seus pares. A imprensa de hoje noticia que ele está disposto a negociar a restituição do poder ao presidente deposto. Deve ter sido uma surpresa amarga para ele e para os poderes Judiciário e Legislativo de Honduras e para os empresários mais ricos a reação internacional ao golpe. Têm razão, se se julgarem traídos pelos Estados Unidos que historicamente apoiaram os golpes de direita no seu quintal. Hoje a OEA se reúne e pode decidir por mais sanções contra os golpistas. O último golpe bem-sucedido no continente foi há nove anos no Equador, mesmo assim com um script que fugia aos padrões (militares derrubaram o governo com apoio de movimentos indígenas, coisa que nem Zapata imaginaria que pudesse acontecer fora do México). Dois anos depois, o retumbante fracasso na Venezuela. Reacionários de todo o mundo não perdoam Chaves por isso até hoje e até sempre.

  5. Maria Inez Salgado de Souza em 1 de agosto de 2009 12:44

    O professor Massote como de costume apreende a realidade sempre indagando mais ao longe as origens dos fatos. Nesse caso do presidente deposto Zelaya, desejamos todos que isso termine e faça ver aos golpistas que a sua “era” já passou na América Latina. Mas indo além será importante se nesse jogo o presidente Obama puder apoiar a reviravolta latina e desarmar os interesses corruptos dos seguidores dos ianques na A. Latina.

  6. Professor Massote, esse gigante « Minas pra geral em 5 de agosto de 2009 22:11

    [...] Para ler o artigo “HONDURAS: A ÁRVORE E A FLORESTA DA CRISE, Fernando Massote”, clique aqui. Segue minha [...]

Deixe um comentário: