A ERA DO EXCESSO ENERGÉTICO OU A VIDA DEPOIS DO PETRÓLEO, Michael Klare (*)

Política Internacional, Política Nacional | 30 de setembro de 2009 | Envie para um amigo

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O debate atual gira em torno de uma questão básica: se já alcançamos o pico da produção de petróleo ou se isso ocorrerá na próxima década. De uma coisa não há dúvida: estamos passando de uma era baseada no petróleo como principal fonte de energia para outra, na qual uma proporção cada vez maior dos insumos energéticos provirá de energias alternativas, sobretudo de energias renováveis derivadas do sol, do vento ou das ondas. Apertem os cintos, porque esta será uma viagem turbulenta e em condições extremas.

Cenário desanimador

Seria ideal, naturalmente, que a passagem do petróleo aos seus sucessores mais amigáveis em termos ecológicos se produzisse suavemente, através de um macrossistema, bem coordenado e interconectado, de instalações de energia eólica, solar, mareomotriz, geotérmica e outras renováveis. Infelizmente, é pouco provável que isto ocorra. O mais certo é que antes atravessemos uma era caracterizada por um excessivo recurso às últimas e menos atrativas reservas de petróleo e carbono, assim como de hidrocarburetos “pouco convencionais”, mas altamente poluentes, como as areias betuminosas do Canadá e outras alternativas fósseis muito pouco atrativas.

Não há dúvida de que Barack Obama e vários membros do Congresso gostariam de acelerar o salto da dependência do petróleo às alternativas não poluentes. Como o próprio presidente disse em janeiro, “comprometemo-nos com a busca firme, centrada e pragmática de uns Estados Unidos livres da dependência [do petróleo] e dotados de um novo modelo energético e econômico que ponha a trabalhar milhões de nossos concidadãos”. Certamente, dos 787 bilhões de dólares do pacote de estímulos que assinou no mês de fevereiro, 11 bilhões se destinaram à modernização da rede elétrica nacional, 14 bilhões a incentivos fiscais às empresas que investiram em energias renováveis, 6 bilhões a programas estatais de melhora energética, e bilhões a mais para pesquisas em matéria de energias renováveis. A estas medidas poderiam somar-se outras similares, caso o Congresso aprove o projeto de lei sobre mudança climática. A versão que a Câmara de Representantes acaba de votar, por exemplo, obriga que, em 2020, 20% da produção elétrica dos Estados Unidos provenha de energias renováveis.

Mas também há más notícias. Inclusive se estas iniciativas prosperarem, e imediatamente se aprovem outras parecidas, ainda levaria décadas para se reduzir substancialmente a dependência norte-americana do petróleo e de outras energias poluentes não renováveis. Tal é nossa demanda de energia e tão arraigados estão os atuais sistemas de distribuição dos combustíveis aqui consumidos que, salvo uma surpresa inesperada, o que temos adiante são anos em uma terra de ninguém entre a era do petróleo e um eventual florescimento das energias renováveis. A este ínterim poderíamos chamar, para dar um nome, de era do excesso energético. E o mais certo é que, em todos os aspectos imagináveis (desde os que têm a ver com os preços até os vinculados à mudança climática), esta nova e sombria era trará consigo muito mais turbinas eólicas, placas solares e veículos híbridos. É possível que a maioria dos novos edifícios venha equipada com painéis solares e que se construam mais trens rápidos. Mas o mais provável em matéria de transportes é a nossa civilização seguir dependendo, no fundamental, de aviões, barcos, caminhões e carros movidos a petróleo. E o mesmo pode se aplicar ao carbono em relação à energia elétrica. Boa parte das infra-estruturas para a produção e distribuição de energia permanecerá intacta, mesmo que as atuais fontes de petróleo, carbono e gás natural comecem a se esgotar. Tudo isso terá uma consequência: forçará a se confiar em fontes fósseis até agora não exploradas, muito menos desejáveis e com frequência bastante menos acessíveis.

Nas recentes projeções do Departamento de Energia sobre os níveis futuros de consumo energético nos Estados Unidos podem ver-se alguns indicadores que antecipam esta combinação de combustíveis na nova era. Segundo o Panorama Anual da Energia para 2009, elaborado pelo Departamento, calcula-se que os Estados Unidos consumirão 114 quatrilhões de unidades termais britânicas (UTB) de energia em 2030. Deste total, 37% provirão do petróleo e outros líquidos dissolvidos no petróleo; 23% do carbono; 22% do gás natural; 8% da energia nuclear; 3% da energia hidráulica e só 7% da energia eólica e solar, da biomassa e de outras fontes renováveis.

Está claro que nenhum desses dados permite prever um dramático abandono do petróleo e outros combustíveis fósseis. Tendo em conta a tendência atual, o Departamento de Energia também prevê que dentro de duas décadas, em 2030, o petróleo, o gás natural e o carbono ainda representarão 82% do consumo primário de energia nos Estados Unidos, só dois pontos menos que em 2009. (Não é descartável, desde já, que uma mudança dramática nas prioridades nacionais e internacionais possa conduzir a um maior crescimento das energias renováveis nas próximas décadas. Mas a estas alturas, um cenário assim é mais uma esperança remota que um dado confiável).

Ainda que os combustíveis de origem fóssil sigam dominantes em 2030, a natureza de alguns deles, e a maneira de adquiri-los, experimentará mudanças profundas. Atualmente, a maior parte de nosso petróleo e do nosso gás natural provém de fontes “convencionais”: vastas reservas subterrâneas achadas em terras ou costas pouco profundas e relativamente acessíveis. Estas reservas podem se explorar de maneira simples com tecnologia conhecida, sobretudo através de versões mais ou menos modernas dos enormes poços petroleiros que ficaram famosos com o filme There Will be blood (Sangue negro), de 2007.

Como fonte de consumo global, entretanto, a maior parte destes poços está a ponto de esgotar-se. Isso forçará a indústria energética a recorrer cada vez mais a plataformas marinhas que permitam buscar petróleo e gás a maior profundidade, areias betuminosas, petróleo e gás proveniente do Ártico e gás extraído de rochas a partir de técnicas muito caras e ambientalmente arriscadas.

Segundo o Departamento de Energia, no ano 2030 estas fontes não convencionais proporcionarão 13% da oferta mundial de petróleo (em comparação com apenas 4% em 2007). Uma tendência similar aparece em matéria de gás natural, sobretudo nos Estados Unidos, onde se calcula que a porcentagem de energia proveniente de fontes não convencionais, mas não renováveis, crescerá de 47% a 56% no mesmo período.

Novas jazidas

A importância destas fontes provedoras é evidente para quem quer que siga os jornais especializados no mercado da indústria petroleira ou que simplesmente leia de maneira regular as páginas de negócios do Wall Street Journal. À margem disso, não deixaram de anunciar grandes descobertas de novas reservas de gás e petróleo em lugares acessíveis às técnicas clássicas de perfuração e conectados a mercados-chave através de tubos ou de rotas de comercialização já existentes (ou fora de zonas de guerra ativas, como Iraque, a região do Delta do Níger ou a Nigéria). Ainda que os anúncios ainda estejam lá, praticamente todos têm a ver com reservas que se encontram no Ártico, na Sibéria ou em águas muito profundas do Atlântico ou do Golfo de México.

Há pouco, por exemplo, a imprensa anunciou com prato e bumbo grandes descobertas no Golfo de México e nas costas do Brasil que, em princípio, permitiriam dar oxigênio suplementar à era do petróleo. Em 2 de setembro, a petroleira BP (a ex-British Petroleum) anunciou que havia encontrado uma jazida gigantesca no Golfo do México, a uns 400 km ao sudeste de Houston. Calcula-se que quando começar a exploração, a prospecção Tiber possa chegar a produzir centenas de milhares de barris de óleo cru por dia, o que reforçaria o status da BP como grande produtor em zonas marinhas. “Isto é grandioso”, comentou Chris Ruppel, um alto analista em matéria de energia do Execution LLC, um banco de investimentos de Londres. “As melhoras tecnológicas estão permitindo liberar recursos que ninguém havia descoberto ou que resultavam de exploração muito cara do ponto de vista econômico”.     

Contudo, se alguém concluísse que esta jazida poderia engrossar rápida ou facilmente os insumos de petróleo do país, estaria equivocado. Para começar, está situado a 10.600 metros de profundidade – mais que a altura do Monte Everest, como apontou um jornalista do New York Times – e bastante abaixo do solo do Golfo. Para chegar até o petróleo, os engenheiros da BP deverão perfurar quilômetros de rocha, sal e areia comprimida, e deverão recorrer para isso a um equipamento caro e sofisticado. Para fazer as coisas ainda mais difíceis, Tiber encontra-se justo no meio de uma zona do Golfo regularmente castigada por tormentas massivas e temporadas de furacão. Qualquer perfuratriz, pois, que pretenda operar na zona, deverá estar desenhada para resistir aos ventos e ondas e para permanecer inativa durante semanas cada vez que os operadores se vejam forçados a evacuar a zona.   

No caso da jazida de Tupi, a outra grande descoberta dos últimos anos, a situação é similar. Situada a 320 km a leste do Rio de Janeiro nas profundidades do Oceano Atlântico, Tupi foi frequentemente descrita como a maior jazida de petróleo descoberta em 40 anos. Calcula-se que poderia abrigar entre 5.000 e 8.000 milhões de barris de petróleo recuperável, uma quantidade que catapultaria o Brasil à primeira linha de produtores de petróleo. Desde que os brasileiros possam, claro, superar sua própria e desalentadora lista de obstáculos: a jazida de Tupi tem por cima 2500m de água do mar e 4.000m de rocha, areia e sal. Para chegar a ela são necessárias tecnologias de perfuração novíssimas e super-sofisticadas. O custo estimado de toda a operação giraria entre os 70 e os 120 bilhões de dólares e exigiria anos de dedicado esforço.

Se se consideram os elevados custos potenciais que comporta a recuperação destas últimas reservas de petróleo, não surpreende que as areias betuminosas do Canadá sejam a outra grande baixa que o negócio do petróleo está disposto a jogar. Não se trata de petróleo no sentido convencional, sim de uma mistura de argila, areia, água e betume (uma forma muito pesada e densa de petróleo) cuja extração exige a utilização de técnicas de perfuração próprias da mineração e cuja utilização como combustível líquido utilizável requer um intenso tratamento prévio. Na verdade, que as grandes empresas energéticas disputassem a cotoveladas a compra de licenças para extrair betume na região de Athabasca ou no norte de Alberta só se explica por seu convencimento de que o petróleo convencional e facilmente acessível está se esgotando.

A mineração de areias betuminosas e sua conversão em combustíveis líquidos utilizáveis é um processo caro e cheio de dificuldades. A urgência em recorrer a ele diz bastante sobre o peculiar estado de dependência energética em que nos encontramos. Os depósitos situados na superfície podem ser extraídos mediante mineração a céu aberto, mas os que encontram-se em zonas muito profundas do subsolo exigem a utilização de vapor, primeiro, para separar o betume da areia, e depois para extrair o betume. O processo global consome enormes quantidades de água e de gás natural (necessários, precisamente, para transformar a água em vapor). Uma parte da água utilizada provém da própria jazida e se reaproveita, mas uma quantidade importante costuma ir para a rede de abastecimento de água de Alberta do Norte, o que gerou o temor entre grupos ambientalistas acerca da poluição em grande escala.

A estes inconvenientes podem somar-se outros, como o intenso processo de desmatamento que a mineração a céu aberto implica ou o alto consumo de um bem como o gás natural requerido para extrair o betume. Entretanto, a demanda de produtos derivados do petróleo que nossa civilização desenvolve é tal que o objetivo é que as areias betuminosas gerem 4,2 milhões de barris de combustível por dia – três vezes a quantidade que produzem hoje – em 2030, mesmo que isso signifique devastar zonas inteiras de Alberta, consumir quantidades ingentes de gás natural, potencializar a poluição extensiva e sabotar os esforços do Canadá para diminuir suas emissões de gases de efeito estufa.

Ao norte de Alberta é possível achar outra fonte adicional de energia excessiva: gás e petróleo do Ártico. Faz tempo já era difícil sobreviver na região, muito menos se esperava que produzisse energia. Entretanto, na medida em que o aquecimento global facilitou às empresas o acesso às latitudes do Norte, o Ártico se transformou em objeto de uma nova febre petroleira. A companhia estatal norueguesa StatoilHydro administra atualmente a mais importante jazida de gás natural do círculo ártico. Um sem-número de empresas de diferentes lugares do mundo, por sua vez, tem em mente realizar explorações em territórios árticos do Canadá, Groenlândia (administrados pela Dinamarca), Rússia e Estados Unidos. Até as perfurações nas costas do Alaska poderiam estar na ordem do dia.

Não será  simples, contudo, obter petróleo e gás natural do Ártico. Inclusive se o aquecimento global eleva as temperaturas e reduz a espessura da capa de gelo polar, as condições para a atividade petrolífera no inverno continuarão sendo extremamente complicadas e arriscadas. As tormentas ferozes e as mudanças bruscas de temperaturas continuarão moeda corrente. Tudo isso suporá um alto risco para qualquer grupo humano desprovido dos correspondentes equipamentos de segurança e um evidente obstáculo para o transporte de energia.

Nada disso, em todo caso, conseguiu dissuadir empresas que, diante do panorama da iminente queda dos insumos petrolíferos, estão totalmente dispostas a mergulhar em águas geladas. “Sem prejuízo das condições adversas, o interesse nas reservas de gás e petróleo no extremo norte não fez senão aumentar”, constata Brian Baskin no Wall Street Journal. “Praticamente todos os produtores vêem o subsolo do Ártico como a próxima grande fonte de recursos”. O que é certo para o petróleo é também para o gás natural e o carbono: a maioria dos depósitos convencionais acessíveis estão se esgotando rapidamente. O que fica são, basicamente, as fontes “não convencionais”.

Os produtores norte-americanos de gás natural, por exemplo, registraram um significativo aumento da produção local, o que provocou uma diminuição de preços considerável. Segundo o Departamento de Energia, calcula-se que a produção de gás dos Estados Unidos passará dos 20 bilhões de pés cúbicos em 2009 a 24 bilhões em 2030. Uma autêntica benção para os consumidores norte-americanos, cuja calefação doméstica e cuja eletricidade dependem em boa medida do gás natural. Em todo caso, o próprio Departamento de Estado apontou também que “a maior contribuição ao crescimento da produção de gás natural nos Estados Unidos proveio de gás natural não convencional, já que a alta de preços e as melhorias nas tecnologias de perfuração proporcionaram os incentivos econômicos necessários à exploração de recursos mais caros”.

A maior parte do gás não convencional nos Estados Unidos é obtida de areias compactas, mas há uma porcentagem cada vez maior que se extrai de rochas metamórficas através de um processo conhecido como fratura hidráulica. Para isso, força-se a entrada de água em formações subterrâneas de xisto com o propósito de partir a rocha e liberar o gás. A quantidade de água empregada neste processo é substantiva, e os ambientalistas temem que parte da mesma, cheia de poluentes, possa acabar nas redes de fornecimento de água potável. Por outro lado, há muitas zonas nas quais a água como tal é um recurso escasso, de maneira que o desvio de quantidades consideráveis para a extração de gás bem pode diminuir as quantidades disponíveis para a agricultura, preservação do hábitat e consumo humano. Contudo, calcula-se que a produção de gás proveniente de xisto saltará dos dois bilhões de pés cúbicos anuais em 2009 aos quatro bilhões em 2030.

O panorama em matéria de carbono é mais ou menos semelhante. Muitos ambientalistas denunciaram a queima de carbono, já que gera mais gases de efeito estufa por BTU produzida que qualquer outro combustível fóssil. Não obstante, a indústria nacional de eletricidade continua recorrendo ao carbono porque segue relativamente barato e disponível. O certo, em todo caso, é que as fontes mais produtivas de antracito e carbono betuminoso –as que contêm o maior potencial de energia – estão exauridas. Portanto, e como ocorre com o petróleo, o que fica são apenas as fontes menos produtivas e vastos depósitos de um carbono com baixo conteúdo betuminoso, muito pouco atrativo e altamente poluente, na zona do Wyoming.

Para ter acesso ao que resta do mais valioso carbono betuminoso dos Apalaches, as companhias mineradoras recorrem cada vez mais a uma técnica conhecida como remoção de superfície da montanha. John M. Broder, do New York Times, descreveu este processo como uma “destruição da superfície das montanhas, no qual os restos de rocha são atirados nos vales e correntes d’água”. Não por casualidade, esta técnica foi fortemente objetada pelos ambientalistas e residentes da zona rural de Kentucky do oeste da Virgínia, cujas fontes d’água estão ameaçadas pelo despejo de restos de rocha, pó e uma variedade de poluentes. Recebeu, porém, o decidido apoio da Administração Bush, que em dezembro de 2008 aprovou uma norma permitindo ampliar extensivamente seu uso. O presidente Obama se comprometeu a revogar esta norma, mas para favorecer a utilização de “carbono limpo” como parte de uma estratégia energética de transição. Fica por ver até onde poderá puxar as rédeas da indústria do carbono.

Prognósticos

Definitivamente, não nos enganemos. Estamos longe de entrar (pelo menos por enquanto) na tão proclamada era das energias renováveis. Esse dia glorioso chegará, eventualmente. Mas não até bem avançado o século e não sem que a busca febril de velhas formas de energia haja causado um considerável dano ao planeta.  

Enquanto isso, a era do excesso energético se caracterizará por uma dependência cada vez maior das fontes menos acessíveis e desejáveis de petróleo, carbono e gás natural. Ao longo desse período seguramente assistiremos a uma intensa luta em torno das consequências ambientais do recurso a fontes tão pouco atrativas de energia. As grandes empresas de petróleo e de carbono crescerão ainda mais, ao mesmo tempo em que os relativamente moderados preços atuais de combustível e da energia crescerão, principalmente como consequência dos elevados custos do processo de extração de petróleo, gás e carbono em áreas de difícil acesso.

Só há uma coisa, infelizmente, certa: a era do excesso energético acarretará intensas batalhas geopolíticas pelo controle das fontes remanescentes entre os maiores produtores e consumidores de energia, como os Estados Unidos, China, União Européia, Rússia, Índia e Japão. Rússia e Noruega, por exemplo, já têm aberto um contencioso fronteiriço no mar de Barents, uma promissora fonte de gás natural no extremo norte. China e Japão, por sua vez, tiveram desencontros similares em torno do Mar da China Oriental, uma área que alberga outra grande jazida gasífera. Todos os países do Ártico – Canadá, Dinamarca, Noruega, Rússia e Estados Unidos – reclamaram seus direitos sobre porções muitas vezes coincidentes do Oceano Ártico, o que gerou inéditas disputas fronteiriças nestas zonas ricas em energia. 

Nenhuma dessas disputas derivou ainda em um conflito violento, mas já houve o deslocamento de navios e aviões de guerra e é possível que os ânimos se acirrem à medida que aumente a consciência do valor dos recursos em jogo. Não se pode esquecer, ao mesmo tempo, que de fato já existem alguns pontos quentes ligados à luta pela energia en Nigéria, Oriente Médio e Mar Cáspio. Na era dos limites energéticos que se avizinha, por fim, tampouco podem descartar-se conflitos em torno das cada vez mais apetecíveis zonas em que a energia é simplesmente acessível.

Para muitos de nós, a vida na era do excesso energético não será fácil. Os preços da energia aumentarão, os perigos ambientais se multiplicarão, quantidades cada vez maiores de dióxido de carbono irão para a atmosfera e o risco de conflitos crescerá. Só temos duas opções para encurtar esta complicada era e mitigar seu impacto. As duas são absolutamente óbvias, o que, infelizmente, não torna mais fácil sua prática: acelerar de maneira drástica o desenvolvimento de fontes de energia renovável e diminuir sensivelmente nossa dependência dos combustíveis fósseis, reorganizando nossas vidas e nossa civilização de maneira que tenhamos que recorrer menos a eles em tudo que façamos. 

Pode ser que isso soe simplório, mas é preciso tentar dizê-lo aos que governam o mundo e às grandes empresas de energia. Não se deve perder a esperança, há que se trabalhar para tanto. Mas, enquanto isso, mantenham apertados os cintos de segurança. A viagem na montanha russa vai começar.

Tradução de Paulo Barbosa

(*) Michael T. Klare é professor dos estudos de Paz e Segurança Mundial na Universidade de Hampshire. Seu último livro é Rising Powers, Shrinking Planet: The New Geopolitics of Energy.

Extraído do site Sinpermiso

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Comentários:

1 comentário sobre “A ERA DO EXCESSO ENERGÉTICO OU A VIDA DEPOIS DO PETRÓLEO, Michael Klare (*)”

  1. octacílio de Paula Silva, BH, 09.08.2009 em 15 de outubro de 2009 15:27

    O estudo do professor Michael Klare é longo e substancioso, abordando particularmente os Estados Unidos, embora se refira também às repercussões mundiais do tema com seus problemas. Mas é pessimista no que se refere às fontes a\lternativas de energia, particularmente as renováveis.Esperemos que o futuro não seja tão dependente dos produtos fósseis (pretóleo, gás natural e carbono), confiando nos combustíveis de origem vegetal, no que o Brasil vem-se destacando tecnologicamente, sobretudo no plantio e industrialização da cana de açucar para a produção de etanol.Este país e toda a América latina possuem vastas áreas agriculturáveis. O seu aproveitamento é que deve ser criteriosamente racional, para contrabalançar a expansão das atividades agrárias com a necessária e difícil preservação dos nossos recursos naturais. BH, 15.10.09. Octacílio P.Silva.

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