CAOS AFEGÃO, Tariq Ali (*)

Política Internacional | 7 de setembro de 2009 | Envie para um amigo

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Dado que a democracia se encontra exausta em suas cidadelas da América do Norte e da Europa ocidental, que devemos esperar do Afeganistão? Estamos apenas diante de uma imitação, de uma elaboração ideológica que deveremos definir justamente como “democratismo”, o rosto aceitável de um poder autoritário. Vimo-la já em ação no Iraque ocupado e agora na farsa inclusive pior em curso no Afeganistão. A ideia de que os resultados darão legitimidade ao candidato vencedor não é senão uma fantasia de alguém em Cabul e uma cínica manipulação por parte do sistema político ocidental estabelecido e de sua imprensa domesticada. Seja qual seja o resultado, não mudará nada.

Hamid Karzai governa um esquálido narco-estado. Wali Karzai é o homem mais rico do país e se beneficia dos tráficos de armas e droga e da presença da OTAN, que mantém seu irmão no poder. Os candidatos rivais de Karzai fizeram parte do governo. Ambos são dois palhaços desejosos de que Washington abandone Karzai e os ponha à prova. O próprio Karzai está coligado com religiosos fundamentalistas ultra-reacionários do Irã ocidental, xiitas aos quais prometeu cinco pastas no governo e a aprovação de uma lei encaminhada para legalizar a violação sexual no casamento. Hillary Clinton se cala. Vida longa à democracia.

O Afeganistão está ocupado pelos exércitos da OTAN sob o comando dos Estados Unidos e da nova Administração. Esta é agora a guerra de Obama, que fez campanha para enviar novas tropas ao Afeganistão e estender a guerra, se necessário, ao Paquistão. No mesmo dia em que Obama manifestou publicamente seu pesar pela morte de uma jovem mulher iraniana, vítima da repressão em Teerã, um avião guiado por controle remoto matou 60 pessoas no Paquistão, entre elas mulheres e crianças, as quais  a própria BBC teria dificuldade em descrever como “militantes”. Seus nomes não significam nada para o mundo, suas imagens não serão mostradas pela rede de televisão. Suas mortes ocorreram por “uma boa causa”.

No mês de maio passado, Graham Fuller, antigo chefe da CIA em  Cabul, publicou uma análise sobre a crise da região no Huffington Post. Ignorado pela Casa Branca quando pôs em discussão grande parte das avaliações sobre as quais se sustentava a escalada bélica, Fuller falou em nome de muitos dos membros dos aparatos de inteligência de seu país e da Europa. Não é frequente eu estar de acordo com um homem da CIA, mas Fuller não só afirmou ter Obama “adentrado o mesmo caminho  de George Bush, fracassado no Paquistão”, e que o uso da força não trará a vitória, mas também explicou aos leitores serem os talibãs etnicamente pashtuns 1, “povos entre os mais fervorosos nacionalistas, tribais e xenófobos do mundo, unidos tão-somente contra o invasor estrangeiro” e que, “em última análise, são mais pashtuns que os islâmicos”. “É uma fantasia – escreveu – pensar que se possa fechar a fronteira entre Paquistão e Afeganistão”. Não creio que seja o único homem da CIA aposentado que recorra ao passado, aos dias de invasão do Camboja “para salvar o Vietnã”.

Em resumo, o Afeganistão jaz no caos. O Paquistão jaz no caos. A solução de Obama é parte do problema. Há uma necessidade desesperada de encontrar uma exit strategy (estratégia de saída). Está Obama em condições de encontrar uma, antes de sua “saída” da Casa Branca?  Os sinais  não deixam muita esperança.

Tradução de Paulo Barbosa

(*)Tariq Ali é membro do conselho editorial do site SIN PERMISO. Seu último livro publicado é The Duel: Pakistan on the Flight Path of American Power (Pakistán en el punto de mira de Estados Unidos: el duelo, Alianza Editorial, Madrid, 2008).

Pashtuns ou pushtuns: grupo étnico fundador do Afeganistão no século XVIII, quando impuseram sua dominação sobre as outras populações e colonizaram terras que até então nunca haviam ocupado. Durante muito tempo, o termo pashtun foi sinônimo de afegão. O talibã, apesar de tentar exprimir um movimento que esteja acima das diferenças de caráter étnico, é formado majoritariamente por pashtuns.


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