GUERRAS, CAPITALISMO E AS BASES NORTE-AMERICANAS NA COLÔMBIA, José Luis Fiori (*)

Política Internacional, Política Nacional | 22 de setembro de 2009 | Envie para um amigo

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Entre 1495 e 1975, as grandes potências estiveram em guerra durante 75% do tempo, começando uma nova guerra a cada sete ou oito anos. Ainda nos anos mais pacíficos deste período, entre 1816 e 1913, estas potências fizeram cerca de 100 guerras coloniais. E, ao contrário das expectativas, a cada novo século, as guerras foram mais intensas e violentas que no século anterior. (J. Levy, War in the modern Great Power System, Ky Lexington, 1983). Por isso, pode-se dizer que as guerras foram a principal atividade dos Estados nacionais europeus, durante seus cinco séculos de existência, e agora, de novo, o século XXI já começou sob o signo das armas. Apesar disso, segue tabu falar e analisar objetivamente o papel das guerras na formação, na evolução e no futuro do sistema interestatal capitalista, que foi “inventado” pelos europeus nos séculos XVI e XVII e só se transformou em um fenômeno universal no século XX. Talvez porque seja muito doloroso aceitar que as guerras não são um fenômeno excepcional, nem resultam de uma “necessidade econômica”. Ou porque seja muito difícil entender que elas seguirão existindo, mesmo que não ocorram enfrentamentos atômicos entre as grandes potências, porque elas não precisam ser freadas para cumprir seu “papel” dentro do sistema interestatal. Basta que sejam planificadas de maneira complementar e competitiva.

À primeira vista, isto parece meio absurdo e paradoxal. Mas tudo fica mais claro quando se olha para o começo desta história e se entende que o sistema mundial em que vivemos foi uma conquista progressiva dos primeiros estados nacionais europeus. Desde seus primeiros passos, este sistema nunca mais deixou de se expandir, “liderado” pelo crescimento competitivo e imperial de suas grandes potências, que lutam permanentemente para manter ou avançar sua posição relativa dentro do sistema. Por isso tem razão o cientista político norte-americano, John Mearsheimer, quando diz que “as grandes potências têm um comportamento agressivo não porque elas queiram, mas por que elas têm que buscar acumular mais poder se querem maximizar suas probabilidades de sobrevivência, porque o sistema internacional cria incentivos poderosos para que os estados estejam sempre procurando oportunidades de ganhar mais poder à custa de seus rivais…” (Mearsheimer, The tragedy of the great powers, 2001, pag. 21).

Neste processo competitivo, a guerra ou a ameaça da guerra, foi o principal instrumento estratégico utilizado pelos Estados nacionais para acumular poder e definir a hierarquia mundial. E as potências vencedoras – que se transformaram em “líderes” do sistema – foram as que conseguiram conquistar e manter o controle monopolista das “tecnologias sensíveis”, de uso militar. Por sua vez, esta competência para o avanço tecnológico, e pelo controle monopolista dos demais recursos bélicos, deu origem a uma dinâmica automática e progressiva de preparação contínua para as guerras. Em uma disputa que aponta, todo o tempo, na direção de um império único e universal.  Ainda que, paradoxalmente, este império não possa ser alcançado sem que o sistema mundial perca sua capacidade conjunta de seguir se expandindo. Por quê? Porque a vitória e a constituição de um império mundial seria sempre a vitória de um Estado nacional específico. Daquele Estado que fosse capaz de impor sua vontade e monopolizar o poder até o limite do desaparecimento de seus competidores. Se isso ocorresse, por conseguinte, acabaria a concorrência entre os Estados, e nesse caso, os Estados não teriam como seguir aumentando seu próprio poder. Ou seja, neste sistema interestatal, inventado pelos europeus, a existência de adversários é indispensável para que haja expansão e acumulação do poder, e a preparação contínua para a guerra é o fator que ordena o próprio sistema.

Inclusive, como a “potência líder” também precisa seguir acumulando poder, para manter sua posição relativa, ela mesma acaba atropelando as instituições e os acordos internacionais que ajudou a criar em um momento anterior. Ela é quem tem maior poder relativo dentro do sistema, e por isso ela é a que acaba sendo, quase sempre, a grande desestabilizadora de qualquer ordem internacional estabelecida.

Entretanto, a preparação para a guerra, e as próprias guerras, nunca impedirão a complementaridade econômica e a integração comercial e financeira entre todos os Estados envolvidos nos conflitos. Pelo contrário, a mútua dependência econômica sempre foi uma peça essencial da própria concorrência. Umas vezes predominou o conflito, outras, a complementaridade, mas foi esta “dialética” que se transformou no verdadeiro motor político-econômico do sistema interestatal capitalista e no grande segredo da vitória européia sobre o resto do mundo, a partir do século XVII.

Entre 1650 e 1950, a Inglaterra participou de 110 guerras, aproximadamente, dentro e fora da Europa, ou seja, em média uma guerra a cada três anos. E entre 1783 e 1991, os Estados Unidos participaram de quase 80 guerras, dentro e fora da América, ou seja, à média também de uma a cada três anos. (M.Coldfelter, Warfare and armed conflicts, Mc Farland, Londres, 2002). Como resultado, neste início de século XXI, os Estados Unidos têm acordos militares com cerca de 130 países ao redor do mundo, e mantêm mais de 700 bases militares fora de seu território. E, com tudo isso, devem seguir se expandindo – independentemente de qual seja seu governo – sem ter que ferir necessariamente o Direito Internacional, e sem ter que dar explicações a ninguém. Por isso, soa absolutamente cômica e desnecessária a justificativa de que as novas bases militares dos Estados Unidos na Colômbia têm a ver com o combate ao narcotráfico ou à guerrilha local, assim como os argumentos que associam a instalação do escudo antimísseis dos Estados Unidos, na fronteira com a Rússia, com o controle e bloqueio dos foguetes iranianos. Como soa ridícula, neste contexto, a evocação do “princípio básico da não ingerência” na defesa das decisões colombianas, polacas o tchecas. Nesse “jogo”, não há limites e por mais lamentável que seja, os “neutros” são irrelevantes ou sucumbem, e só restam duas alternativas aos que não aceitam aliar-se ou submeter-se à potência expansiva: no caso dos mais débeis, protestar; e no caso dos demais, defender-se.

Tradução de Paulo Barbosa

(*) José Luis Fiori é membro do Conselho Editorial de SINPERMISO.

Extraído do site Sinpermiso

 

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Comentários:

1 comentário sobre “GUERRAS, CAPITALISMO E AS BASES NORTE-AMERICANAS NA COLÔMBIA, José Luis Fiori (*)”

  1. Kelin em 20 de outubro de 2009 23:07

    gostei do artigo, me ajudou num trabalho sobre pq inicar uma guerra….
    valeu

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