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LULA E A NARRATIVA EXEMPLAR, Paulo Barbosa (*)
Política Nacional | 1 de janeiro de 2010 | Envie para um amigo
Por dever de ofício, fui ver Lula, o filho do Brasil. Desde a fila, interroguei espectadores sobre o que esperavam do filme. Recebi como resposta, invariavelmente: “estou aqui por causa do Lula, gosto dele, a história dele é bacana etc.” Ou seja, as pessoas não apenas sabiam o que esperar, mas desejavam-no ardentemente. Com efeito, Lula, o filho do Brasil investe na mitologia do herói predestinado, focalizando sua trajetória difícil, sua luta contra as adversidades, a relação com a mãe, com as mulheres e os companheiros, limando um Lula eventualmente mais radical do script, para atender à avidez massiva por narrativas exemplares.
Velha, essa receita vai ao encontro do mito do esforço pessoal (de corte sabidamente ideológico), não trazendo rigorosamente nada de novo. Ora, não se pode impedir as pessoas de ir ao cinema para experimentar um gozo temporário com a história edificante de rapaz pobre que venceu na vida porque “teimou” até conseguir o que queria. Um dos usos mais elementares daquele cubo escuro é precisamente oferecer narrativas redentoras como estas. Há um filme para cada neurose, alguém já disse por aí.
Lula, o filho do Brasil quer ser, pois, um filme para “o povo, não para os intelectuais”, como disse a autora do livro no qual a fita se baseia, já revelando um odioso preconceito. E há grandes filmes caça-níqueis, não cabe dúvida. Mais que “o filme do Lula”, portanto, este poderia ter sido o-grande-filme-caça-níqueis de Luiz Carlos Barreto. “Só para ganhar dinheiro”, como confessou o produtor em entrevista à revista Piauí. Barreto percebeu a componente mitológica, universal, da trajetória do Presidente e decidiu apostar nisso, ele que só votou no Lula nas últimas eleições. E usou dinheiro de empresas ligadas ao governo no filme, numa jogada obscura.
Mas, que diabo, nada disso livra Lula, o filho do Brasil de ser um filme (muito) ruim. Faltou-lhe o tempero da ousadia, qualquer uma. Até Xuxa e o mistério da feiurinha sabe que é preciso alguma ousadia, sempre. Talvez o excesso de reverência ao tratar do presidente tenha levado a semelhante resultado. Tudo é calculado para não causar nenhum estrago, nenhum arranhão à figura do líder, incensada do início ao fim. Não há cacos, tudo é muito limpinho e heróico. Até mesmo uma estonteante Cléo Pires, sonho sexual de dez entre dez homens maiores e vacinados, é oferecida ao Lula-jovem como prêmio por seu bom comportamento. Para completar, a fotografia é correta além do necessário, os diálogos são rudimentares, e o Lula sindical resulta em caricatura do seu sindicalismo renovador.
Ao término da sessão, pude ouvir meia-dúzia de aplausos, fracos e envergonhados, vindos da platéia. A tela do cinema já não mostrava filme, apenas os créditos, emoldurados por uma série de fotos antigas de Lula. As palmas não aplaudiam mais o filme, portanto, mas um personagem teimoso, em cuja história só queriam ver um pouco da sua própria.
(*) Mestre e doutorando em cinema
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Não vi e não gostei. Ou melhor, gostei mais do filme do Pinoquio. Mas isto foi ha muito tempo atras. Belda