CONFISSÕES DE UM TORCEDOR BISSEXTO, Paulo Barbosa (*)

Minas Gerais, Política Nacional, Uncategorized | 2 de junho de 2010 | Envie para um amigo

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Caminhava eu pela Lagoa da Pampulha, à altura do Parque Ecológico, quando vi um punhado de garotos soltando pipas estampadas com o lábaro brazuca. Naquele trecho da cidade, normalmente habitado por patos, garças, capivaras – e a eterna poluição da lagoa –, as pipas em revoada eram um raro espetáculo, belo de se ver. Combinado à placidez salvífica do lugar (malgrado a água tisnada), o cenário lembrou-me o de outras Copas, igualmente tomado por um nacionalismo invasor de corpos, mentes e objetos, cuja expressão mais eloquente são as cores dominantes de nossa bandeira tingindo lentamente a paisagem.

É sempre assim: quando começa o campeonato mundial de futebol, o nacionalismo tupiniquim, despertado de um sono profundo de quatro anos, espalha-se por muros, prédios, ruas, avenidas, calçadas, carros, ônibus, metrôs e aeronaves, num onipresente verde e amarelo. Nos dias da Copa, somos possuídos por um inédito ardor cívico. Temos imperiosamente de torcer pelo Brasil e qualquer crítica em relação ao país e seu destino glorioso será interpretada como traição à pátria, quando não gravíssima ofensa moral. Políticos são perdoados de suas patranhas, esquecemos todas as mazelas que nos assolam desde Cabral, e o mandatário-mor da nação é temporariamente destituído para que o técnico da seleção assuma como presidente em exercício. Noticiários de TV inflamam-se, confundindo informação com publicidade, exaltando jogadores, agraciados com o status provisório de semi-deuses. A publicidade inunda olhos e ouvidos com marchinhas ufanistas, mulheres exuberantes e praias tórridas, convidativas ao turismo sexual. Está-se no reino da cocanha, no jardim das delícias terrestres, e o país empertiga-se para revelar ao mundo seu jeito meio sem-vergonha de ser, como um exemplo a ser copiado alhures e algures.

Nunca fui ao Mineirão, nem mesmo em dia de clássico. Sem credo religioso também em futebol, sempre que me perguntam para que time torço, respondo ser atleticano por inércia. Mas confesso não deixar de me contaminar pela onda verde amarela nos dias do mundial e me deprimir muito no pós-Copa, se a seleção não traz o caneco. Fatiga-me, sim, ver o espetáculo ufanista, revelador de nossa personalidade ciclotímica, este delírio orgástico muito problemático que percorre espinhas de norte e a sul e só termina no último dia de jogo. É triste que o país seja medido em sua grandeza apenas por mulatas bundudas, pelo carnaval, pela cachaça e pelo futebol. Mas se a seleção não ganha a parada (vade retro, te esconjuro!), e nossas bandeiras, cornetas e vuvuzelas são recolhidas às gavetas para tudo voltar aos velhos trilhos, minha auto-estima cai a abaixo de zero, sou imediatamente abduzido pelo pessimismo que já afeta as bolsas, desestabiliza os mercados e faz do Brasil a bola da vez, por que não jogou a metade do que sabe, com todos os diabos.

Tudo seria melhor se não depositássemos as nossas esperanças no Robinho ou no Cacá, sabidamente patrocinados por multinacionais fabricantes de tênis. Tudo seria mais fácil caso não precisássemos passar pelo sufoco de encarar a Argentina e ter obrigação moral de vencê-la, enquanto a miséria grassa pelas favelas. Tudo estaria muito melhor, em suma, se prestássemos mais atenção ao que estão fazendo os políticos enquanto botamos os bofes para fora durante um Brasil x Itália. Mas, que diabo, prefiro não ver esta rapaziada voltar trôpega e de cabeça baixa à terra brasilis, prefiro não correr o risco de perder de Gana ou de Camarões – que estão jogando um bolão, valha-me nosso senhor Jesus Cristo – e só voltar a recuperar o amor próprio daqui a quatro longos e sofridos anos.

Por isso, com licença, senhores, pois vou ali acender uma vela pro santo, comprar uma pipa verde-amarela e já volto.

(*) Cartunista nas horas vagas

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Comentários:

10 comentários sobre “CONFISSÕES DE UM TORCEDOR BISSEXTO, Paulo Barbosa (*)”

  1. Roni em 2 de junho de 2010 11:12

    sua cara esse texto rsrs, ficou muito bom.
    Uma crônica atual , sóbria e pertinente nesses tempos de copa do mundo e crises no futebol, política e economia. Parabéns!!

  2. Eugênio Magno em 2 de junho de 2010 11:14

    Mandou bem, meu nobre escriba.
    Abraço verde e amarelo,
    Eugênio.

  3. ana paula em 2 de junho de 2010 12:11

    Amei o texto. Lembrei de vc no jogo contra a França, ai que sufoco! que desperdício, que vergonha! Este ano estaremos novamente curtindo (sofrendo) e o melhor rindo bastante. Abraços

  4. Carolina Brauer em 2 de junho de 2010 17:52

    Arrasou como sempre, Paulinho! Que texto! E que traquejo com o vernáculo! A propósito, estava pensando mesmo em contatar você, é sobre a biografia do senhor Irani. E aí, topas fazer uma parceria em um futuro projeto biográfrico da fera? Bora começar as entrevistas com ele! O que me diz? Entre em contato aê!

    Abraço,
    Carol.

  5. Carmen Dulce Vieira em 3 de junho de 2010 10:22

    Pois é Paulo, haja saco para tanta “patriotada”. Como recomenda meu bom amigo e poeta, Alexandre Marino, é hora de ler um bom livro, andar de bicicleta e mesmo passear a pé na Savassi, completamente vazia durante os jogos…

  6. Maura Coutinho em 3 de junho de 2010 12:56

    Em minha rua alguns vizinhos pintaram o meio fio de verde-amarelo-verde-amarelo e no chão pitaram figuras de elefante e leão. Toda época de copa eles fazem alguma pintura. São bonitas e eu fico alegre, pois se reuniram para aquele trabalho. Sobretudo porque vivemos situações em que vizinhos não se conhecem. As fitas verdes e amarelas penduradas no beiral das casas é o mais comum. Isso é como montar arvore de natal com algodão para imitar neve. Todos fazem, mas eu não sei qual sentido dar para isso (se eu perguntar será que as pessoas ficarão aborrecidas comigo? Talvez pensem que a resposta seja obvia.). Não é só a falta de sentido que me aborrece. Depois de ler o texto do Paulo penso que a minha situação é grave já que não busco meios para assistir os jogos e não me importo se os jogadores voltam de cabeça baixa. O que me chateia é o fato de que quando sou arrastada para ver algum jogo não sinto emoção futebolística diante da euforia dos amigos torcedores. Não consigo fazer aquele movimento de vibração em que os braços são erguidos sobre a cabeça, as mão são fechadas e impulsionadas pelo grito. Respeito a alegria dos amigos, mas fico o tempo todo pensando: de onde vem isso? Esse pensamento não tem graça. Se houvesse um curso para aprender a torcer na copa, penso que faria. Claro, se achasse um sentido nisso.

  7. Iran orozco em 3 de junho de 2010 17:08

    Lindo o texto Sir!
    A alegria do povo realmente contagia a maioria das pessoas, inclusive os intelectuais!
    Esta alegria é tão legal que não podemos ficar questionando ou julgando.
    Devemos simplismente nos alegrar também!
    Amo você mano!
    Estou com saudades!
    Grande abraço!

  8. José de Souza Castro em 4 de junho de 2010 08:31

    Excelente artigo. Sobre futebol, sou suspeito para comentar, pois me sinto como Maura Coutinho. (No meu caso, trauma de infância, pois quando menino na roça, o irmão mais velho e o tio da sua idade eram torcedores do Flamengo, o primeiro, e do Fluminense, o outro. E me obrigaram a torcer para o Bangu. Como meu time sempre perdia, desinteressei-me para sempre.) Mas sei o suficiente para saber que muitos exploram o futebol e a boa fé dos torcedores. Sem o radinho no ouvido, assistindo a jogos no Maracanã, o ditador Garrastazu não teria sido tão amado por muita gente com e sem lenço e sem documento… Mas o que incomoda, realmente, são as patriotadas do treinador, da Brahma e da Globo. E os foguetes, claro!

  9. MAHGAH em 6 de junho de 2010 11:47

    Vamos experimentar misturar o futebl com política então:
    Centroavantes:
    Dilma, Lula, e Serra Molusco.
    Defesa: o presidente da Anac e a Aeronautica
    Meio de campo: Aécio neves e Sua irmã e dona da mídia
    Laterais: O Exécito e a Marinha
    Goleiro: Deixa o Fábio do Cruzeiro por que já tem até um fã clube de patricinhas pingando estrógeno…
    Eu quero um carregamento de colírio alucinógeno pra ver melhor! eu e o Macaco Simão urgente!!!!

  10. Carla em 9 de junho de 2010 07:34

    Atleticano por inércia, só vc mesmo viu!!! Muito bacana seu texto como sempre caro amigo vc sabe tudoooooo!!!!
    Abraços e vamos Brasil…rs!!!

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