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É chato ficar surdo ? Claro que é, mas também não deixa de ser uma bênção para quem deseja se abstrair da doideira que tomou conta das ruas com bares e botecos a todo o vapor.Sem falar dos chatos,incontornáveis e eternos. Contudo, no sentido humano, uma das misérias mais penosas que o envelhecimento acarreta ao individuo é a insuficiência auditiva parcial ou total, hipoacusia ou acusia em terminologia médica.Não existe, em verdade, alguém que tenha transposto os umbrais da senectude capaz de preservar integralmente a sua função auditiva. O pior é que a sintomatologia é muito insidiosa e afeta faixas etárias ainda longe da decrepitude.
A princípio o afetado começa a perguntar “ hein?…”em tudo que lhe é falado. Depois passa a colocar a mão em concha atrás da orelha, curvando o tórax para a frente , o que não deixa de ser um atitude pouco civilizada. São sinais indiretos de surdez. Seguem-se as confusões coloquiais consequentes a quem troca “sei” por “seis”, e daí pra frente . Mas a tragédia disso tudo, e acho que podemos falar em tragédia, é que o surdo é um personagem tragicômico, uma vez que a sua desgraça pessoal se transfigura em piada para todo o mundo. Ele a aceita provavelmente em decorrênc ia de sofrer uma perda suave, gradativa e longa, que o vai afetando sem que ele a perceba muito bem. De um modo geral e fatalístico porque está inexoravelmente ligado ao desenvolvi mento da vida, ao envelhecimento
Contudo, não deixa de ser paradoxal, presente na tragédia para o portador e na pilhéria para os demais.Neste sentido existe um infinito anedotário , do qual transcrevo apenas uma história.
Assim que João Ubaldo Ribeiro chegou para tomar posse na Academia Brasileira de Letras assentou-se diante de um plenário onde estavam condensados alguns acadêmicos titulares que poderiam sem dúvida constituir a representação simbólica dos surdos brasileiros . Um deles falou para o colega ao lado sobre o empossado: -”É um dos maiores polemistas do Brasil”. Aí foi interrogado por um terceiro:”-O que é que ele falou do homem?” Foi atendido na hora: “-Que é o maior porrista do Brasil”.
Em certos casos a surdez acerta, parcialmente, mas acerta.
(*) - Escritor
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