CLASSE MÉDIA MAIS QUE FISIOLÓGICA, Fernando Massote

Cultura e Educação, Debate político, Direitos Humanos, Minas Gerais, Mobilizações da Sociedade Civil, Nova Lima, Política Nacional, falsos condomínios | 24 de fevereiro de 2012 | Envie para um amigo

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Em Nova Lima e outras localidades,o caso da privatização do espaço público pelos falsos condomínios, a relação da classe media com a questão da segurança gerada pelo estado mínimo, que reduz ao máximo o financiamento público para o custeio saúde, da educação, da segurança e de outras atividades de interesse prioritário da sociedade, depende de um contexto sobre o qual temos que refletir.
Estamos, nessas situações, cercados por uma grande variedade de indivíduos da classe média que, não obstante as diferenças no nível da renda, da formação intelectual e política, unem-se na forma de ver a vida e o mundo do modo mais violento nas relações sociais, culturais e políticas. Adotamos em relação a este conjunto de indivíduos uma estratégia geral de pressão político-ideológica que os faz revelar, em suas atitudes, um comportamento inteiramente fascista.
Questionamos o status ou inconsciente social desses indivíduos que se crêem - cada um no seu nível de atividade profissional, intelectual e de relações sociais mais imediatas - as melhores figuras do mundo. Sem saber dialogar, eles reagem de forma sempre descontrolada.
Vamos aos exemplos para esclarecer melhor esta situação.
Um dos vizinhos é um tosco proprietário de um curral, criador de cavalos na entrada do bairro Ouro Velho. O crescimento sócio-demográfico e intelectual do bairro, sempre mais contrário a seu tipo de atividade, numa área residencial, o enfurece. Ele usa frequentemente o reio ou chicote, com o qual trata seus animais, como instrumento para ameaçar e agredir as pessoas que o criticam. Seus cavalos invadem a entrada do bairro e espalham alí o mal cheiro típico do curral.
Outro morador, com aparência de origem social mais tradicional, é, ao que diz, arquiteto. Quer parecer uma figura ecologicamente sadia mas trai esta sua auto-imagem com uma grosseria permanente. Cercou sua casa com árvore de “ficus Benjamin” que é estrangeira e tem um enraizamento superficial e não pivotal, cujo plantio em áreas residenciais é contrário às exigências da planta que precisa de captar água na superfície do terreno, espalhando, assim, suas grossas e longas raízes e ameaçando a segurança das edificações. As raízes, frequentemente cercadas de cimento ,ficam sem água para alimentar-se.
No seu modismo ambiental que, muito equivocadamente, vem de suas relações sociais e intelectuais estereotipadas, não demorou a verificar que a planta ameaçava sua casa. Na ânsia de disciplinar o crescimento das plantas, passou então a podá-las sem se dar conta que elas não são disciplináveis; que o que se tem que fazer é afastá-las das áreas residenciais.
O caso dele se parece com o do prefeito de uma cidade do interior mineiro, Campo Belo, que encheu o jardim de dezenas dessas árvores e cercou-as com cimento armado. As plantas foram se esgotando por falta de água e começaram a morrer. O movimento comunitário chamou um professor da vizinha Universidade de Lavras, doutor em fitoterapia, para dar uma aula comunitária e explicar o caso. A aula foi data mas sem a presença do Prefeito e de qualquer de seus assessores, que assim perpetuaram a própria ignorância. O prefeito agiu como o arquiteto de que falamos e o general de l964, que disse que ao escutar a palavra cultura desembainhava prontamente o revolver… O resultado foi que o prefeito e seus sucessores, não obstante as criticas, continuam até hoje a plantar, na malfadada praça, mudas das mesmas árvores em substituição às que morrem!
O pseudo-ambientalismo do arquiteto lhe permite, ainda, manter meia dúzia de cachorros sem qualquer adestramento, como se vivesse em uma fazenda, na roça e não em um bairro cercado por vizinhos. Os cachorros latem dia e noite por longos períodos, o que não incomoda de nenhuma maneira o “moderno ecologista”! Os cachorros barulhentos escapam frequentemente das cercas mal cuidadas de sua propriedade e agridem os passantes. Ele já foi levado à justiça por um jovem trabalhador agredido pelos seus cachorros.
Outro vizinho é o dono de um posto de gasolina que tem também uma pizzaria, cujas janelas traseiras dão para o bairro Ouro Velho. Ele, com sua mentalidade grosseiramente mercantilista e num local sem nenhuma preparação acústica, quis entreter seus clientes com um karaokê “baiano”, cujo som atingia de cheio o bairro. Interpelado política e judicialmente, juntamente com o prefeito Carlinhos Rodrigues, de Nova Lima, contra o uso arbitrário de sua Pizzaria para o funcionamento de um karaokê e a ilegalidade dos “alvarás” concedidos pela prefeitura, ele perdeu a parada e o silêncio voltou a se implantar na área. Ele até hoje age com o rancor típico de quem não quer entender as exigências da civilidade. Ele está certo, todos osm outros estão errados. Ele pensa da mesmissima forma que o dono do posto de gasolina e da pizzaria, o “arquiteto”, o “engenheiro” pingunço, o comerciante da patota baguceira, etc.
Outro vizinho é o dono de uma casa comercial na periferia de BH. Esse senhor foi certamente atraído pelo vozerio ridículo de uma Associação de Condomínio que, representando setores de classe media do bairro, quer fechá-lo contra todas as leis que proíbem a privatização de áreas públicas.
Tendo feito algum dinheiro, quis, certamente, morar em uma área nobre, o mais distante possível, do “povo pobre”. Projetou transformar o único quarteirão da rua, fechado abusivamente pelos condominialistas, numa área de lazer de suas babás e filhos pequenos, expondo perigosamente as crianças a serem atropeladas pelos carros que chegam à rua sem esperar encontrar ali crianças brincando. Interpelado pela vizinhança ele reagiu estupidamente, até que, numa atitude de relativo recuo, resolveu limitar fisicamente (e não o infernal alcance sonoro do fato) do barulho de sua patota social aos limites de sua própria casa.
Outra figura, é a de um engenheiro que veio estudar em Belo Horizonte e se formou nos anos da ditadura. Não tem a mínima consciência social e política e veio, também, em busca de status, morar num “bairro nobre”. É um amante dos bares onde costuma se embebedar. Não veio morar num bairro “nobre” buscando o verde, o silêncio e a natureza e sim, como outros, em busca de status ou uma medíocre afirmação social. Busca, para viver, uma área sem ninguém, quase deserta, para nãop sofrer pressãosopcial, cultural e políticaalguma e figurar ridiculamente como “dono do pedaço”. Seus filhos, desorientados, foram instruídos pelos pais a agirem como se fossem boyzinhos fuzarqueiros. Contrastados pelos vizinhos em defesa do silêncio e contra a baderna da turma de adolescentes transviados que se juntam na porta de sua casa, se comportam como figuras amargas, raivosas, descontroladas.

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Comentários:

4 comentários sobre “CLASSE MÉDIA MAIS QUE FISIOLÓGICA, Fernando Massote”

  1. José de Souza Castro em 24 de fevereiro de 2012 15:28

    Que vizinhança! E o bravo professor, estou a apostar, quando escolheu esse bairro para morar com sua família, buscava a paz. Mais perto da natureza, mais longe dos problemas da metrópole. Muito frustrante, não? Parece sem solução: o professor nunca conseguirá descer aos pés desses vizinhos; estes, jamais se alçarão ao nível de Fernando Massote.

  2. Délcio Vieira Salomon em 24 de fevereiro de 2012 22:13

    Como tem razão o velho Riobaldo: - Viver é perigoso!
    Hoje a coisa está realmente feia, por todos os cantos. Lembra o que dizia o velho Kafunga, que o errado é o certo.

  3. Ricardo Antonio Lucas Camargo em 10 de março de 2012 19:34

    Aí estamos diante daquela velha questão, Prof. Massote: as figuras que o sr. retrata são precisamente aquelas que vibram de civismo quando vêem a polícia “expulsar os vagabundos da rua”, reprimir com toda a força quaisquer manifestações de protesto e, no entanto, vêm a dar-se, “porque pagam seus impostos”, como absolutamente liberados de quaisquer limites, porque, afinal de contas, o dinheiro lhes serve de passaporte da honra e tudo aquilo que se oponha à plena realização dos seus próprios desejos é considerado um atentado à sua liberdade. Afinal, pela própria natureza das coisas, o mundo existe para ser um espaço de livre disposição para eles e o restante só pode ser, mesmo, usurpador de uma posição que nada fazem por justificar ocuparem.

  4. Juan Carlos em 18 de março de 2012 10:13

    Artigo oportuno nestes tempos de “sociedade do espetáculo” e consumo compulsivo. Sempre lembro Mário de Andrade:

    Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
    o burguês-burguês!
    A digestão bem-feita de São Paulo!
    O homem-curva! o homem-nádegas!
    O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
    (…)
    Fora! Fu! Fora o bom burgês!…
    (Mário de Andrade, Paulicéia desvairada,1922)

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