GILBERTO FREYRE, Carlos Alberto Barros Santos (*)

Crônicas | 14 de fevereiro de 2012 | Envie para um amigo

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Gilberto Freyre talvez tenha sido a maior figura intelectual do Brasil no século XX. Talvez. Aplaudido e consagrado no mundo inteiro, careceu, entretanto, de reconhecimento integral em seu próprio País. Enfrentou violentas críticas, sobretudo do grupo de sociólogos uspianos, empanturrados de dialética marxista, que não aceitavam suas teses sociológicas, acusadas de demasiadamente românticas.

Com tudo isso, reconhecido mundialmente, Freyre sobreviveu ao seu tempo, mesmo mandando às favas certas posturas de dignidade, bem flagrantes na adesão ao golpe militar brasileiro e na comunhão subserviente com o ditador Salazar. A sua obra, entretanto, transcende a isso tudo. O homem, extremamente ególatra, e com vários escolhos biográficos, parece estar abaixo dela. Mas o autor Gilberto Freyre se engrandece diante da edição internacional do Casa Grande & senzala pelo projeto Vitae, livro que contém mais exegetas estrangeiros do que brasileiros, estes representados principalmente por Edson Nery da Fonseca, a maior autoridade internacional em relação à obra gilbertiana.

Mesmo assim ,consagrado e editado em numerosos idiomas, Gilberto continua controvertido, vale dizer, sem aprovação integral.Essa resistência às ousadas teses do pernambucano surgiu principalmente dentro da USP, com Florestan Fernandes e Fernando Henrique entre outros, que não aceitavam Gilberto por considera-lo excessivamente fantasioso .Ele seria um sociólogo mal realizado, com enorme vocação para a ficção romântica, que “inventou” a miscigenação brasileira como produto definitivo da nossa colonização e, portanto fonte única formativa do homem brasileiro definitivo. Isso em 1933, data do lançamento do livro. Seja como for, o Casa Grande &senzala que enaltece a mestiçagem polariza-se com o Mein Kampfen de Adolf Hitler, lançado no mesmo ano e que proclama a supremacia da raça ariana.Por coincidência,neste mesmo ano, Andre Malraux lançou o A Condição Humana.São três livros extremamente importantes, mas divorciados em linhas e conceitos.

Agora,em Paraty, onde se realiza um festival literário Gilberto Freyre ressurge na voz do antigo detrator – Fernando Henrique Cardoso. Este sociólogo, homem melífluo e pouco afeito à multidisciplinaridade da sociologia, da qual se pretende mestre absoluto, mostra-se, tardiamente simpático às teses gilbertianas – ele que as renegou no passado quando se agitava em torno da pernóstica USP.Por que será ?
Não importa. Casa Grande& senzala é, em suma, um clássico.Vive e se engran dece cada vez mais, independentemente da USP e de FHC. As interpretações de Gilberto Freyre conservam seu interesse independentemente da validade que se atribue a elas . Sua leitura revive espectros do passado que não conseguimos purgar definitivamente. E o faz com uma mestria literária que assegura a esta criação um lugar entre as grandes obras da imaginação histórica moderna.
(*) - Escritor

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Comentários:

2 comentários sobre “GILBERTO FREYRE, Carlos Alberto Barros Santos (*)”

  1. Carlos Alberto Barros Santos em 16 de fevereiro de 2012 12:01

    Caro Fernando,
    Muito obrigado pela reedição do meu artigo, que tem o mérito de me fazer presente junto aos poucos leitores dos meus descoloridos escritos. Se conseguir escapar, já não digo da doença,mas do tratamento dela, esteja certo do meu retorno a um blogue que tanto admiro pela qualidade dos seus colaboradores, pelo senso democrático e pelo respeito às boas diretrizes do bom jornalismo. Um grande abraço do Carlos Alberto

  2. Cid Velloso em 6 de maio de 2012 09:13

    Carlos Alberto:
    Acompanhei, durante muito tempo, a visão que havia de um grupo de intelectuais, como voce citou, sobre Gilberto Freyre. Mas, ao mesmo tempo, sempre as obras dele, especialmente “Casa Grande e Senzala” sempre foram consideradas fundamentais no país. Felizmente, agora ele está sendo mais explicitamene reconhecido como um grande escritor e sociólogo.
    Muito bom seu artigo.
    Um abraço do
    Cid

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